Consumo de Álcool na Terceira Idade
O consumo de bebidas alcoólicas faz parte da rotina de muitos brasileiros desde cedo. Em média, o primeiro gole é experimentado por volta dos 12 ou 13 anos, uma fase em que o cérebro ainda está em pleno desenvolvimento. Com o passar das décadas, esse hábito pode persistir até a velhice, quando o organismo passa a reagir de maneira diferente e mais vulnerável aos efeitos do álcool.
O psiquiatra Frank Silva, do Hospital Santa Mônica, alerta que o consumo de álcool na terceira idade representa riscos específicos e muitas vezes subestimados. Ele explica como o envelhecimento altera o metabolismo e aumenta a sensibilidade do corpo e do cérebro às bebidas alcoólicas.
Álcool afeta quase todo o organismo
De acordo com o Dr. Frank Silva, o álcool é uma substância de ação ampla no organismo. “Praticamente, o álcool afeta todas as partes do nosso corpo”, afirma o médico. Seu principal efeito é sobre o sistema nervoso central, desacelerando a atividade cerebral e produzindo sensações de relaxamento e euforia.
Essa sensação prazerosa, porém, tem um alto custo. A desinibição provocada pelo álcool pode fazer com que a pessoa fale sem filtros, reduza a noção de perigo e tome atitudes impulsivas. “A socialização aumenta e gera relaxamento, uma sensação de que meus problemas se foram, o que na verdade é uma ilusão”, destaca o psiquiatra.
Esse estado de falsa tranquilidade pode deixar o indivíduo vulnerável a uma série de situações de risco, especialmente acidentes de trânsito, intoxicações e comportamentos que colocam a própria saúde em perigo.
Envelhecimento e metabolismo mais lento
Com o avanço da idade, o corpo passa por diversas mudanças fisiológicas que alteram a forma como metaboliza o álcool. O Dr. Frank explica que, ao envelhecer, o metabolismo torna-se mais lento e órgãos como o fígado perdem eficiência.
“O fígado diminui, a quantidade de enzimas que quebram o álcool é menor, e isso pode gerar metabolizações tóxicas em outros órgãos”, esclarece. Em outras palavras, o álcool permanece mais tempo circulando no organismo, potencializando seus efeitos nocivos.
Além disso, a composição corporal do idoso muda, com redução da massa muscular e aumento relativo da gordura corporal. Isso também interfere na distribuição e nos efeitos do álcool no corpo, tornando a intoxicação mais provável mesmo com doses menores.
Interação perigosa com medicamentos
Um aspecto crítico do consumo de álcool na terceira idade é a interação com medicamentos. Idosos costumam usar diversos fármacos de forma contínua, muitos deles com atuação sobre o sistema nervoso central, o sistema respiratório e o trato digestivo.
“Alguns remédios tomados por via respiratória, para sistema nervoso central, digestório, provocam maior lentidão”, explica o psiquiatra. Quando combinados com o álcool, esses medicamentos podem intensificar sonolência, tontura e perda de reflexos.
O resultado é um aumento significativo do risco de quedas, que em idosos podem ter consequências graves como fraturas, hospitalizações e perda de autonomia. A combinação de álcool e remédios também pode sobrecarregar o fígado e os rins, comprometendo ainda mais a saúde.
Imunidade em queda e maior vulnerabilidade
Os efeitos indiretos do álcool no organismo do idoso também merecem atenção. Segundo o Dr. Frank Silva, o consumo frequente de bebidas alcoólicas contribui para uma queda gradual da imunidade.
“Direta e indiretamente vai caindo a imunidade, favorecendo uma suscetibilidade a infecções, doenças respiratórias e virais”, ressalta. Em um organismo já fragilizado pelo envelhecimento, essa redução nas defesas naturais abre espaço para quadros graves de pneumonia, gripes, complicações de doenças crônicas e até internações prolongadas.
Consumo consciente e orientação médica
Embora muitas pessoas associem o álcool a momentos de lazer e socialização, especialmente em encontros familiares e celebrações, o psiquiatra faz um alerta: na terceira idade, qualquer consumo deve ser avaliado com cuidado.
A recomendação é que idosos conversem com seus médicos sobre o uso de bebidas alcoólicas, especialmente se fazem uso de medicamentos contínuos ou têm doenças crônicas como hipertensão, diabetes ou problemas cardíacos.
O acompanhamento especializado pode ajudar a identificar riscos, ajustar tratamentos e, se necessário, indicar a redução ou interrupção do consumo de álcool. A informação e a conscientização são fundamentais para proteger o cérebro e a saúde como um todo na terceira idade.
Para o Dr. Frank Silva, o mais importante é entender que os efeitos do álcool não são os mesmos ao longo da vida. O que antes parecia um hábito inofensivo pode, com o tempo, se transformar em uma ameaça silenciosa à qualidade de vida e ao bem-estar na velhice.