Uma folia de autocuidado
Com olhos emocionados e um sorriso no rosto, a professora carioca Carmen Araújo, de 59 anos, deixou o samba tomar conta de seus pés durante uma folia pré-carnavalesca em Brasília. Desde que começou a cuidar de seu pai, que sofre de Alzheimer, há 15 anos, Carmen aprendeu a importância de também cuidar de si mesma. Neste domingo (8), ela se juntou a outros integrantes do coletivo Filhas da Mãe, que busca apoiar cuidadores, principalmente mulheres, que lidam com familiares com doenças demenciais.
Carmen compartilha que a tradição do carnaval foi algo que herdou de seu pai, que agora tem 89 anos. “Ele sempre gostou muito. Até recentemente, ainda participava. Hoje não é mais possível”, revela, visivelmente emocionada. Para ela, a participação no coletivo vai além de uma simples celebração; é uma forma de colaborar com outras famílias e compartilhar experiências semelhantes.
A importância de se cuidar
Durante as festividades, o Filhas da Mãe se transforma em um bloco carnavalesco, onde a alegria é acompanhada de uma mensagem poderosa. Carmen lembra que “se a gente não se cuidar, adoecemos também”. Essa ideia de autocuidado é um dos pilares do coletivo, que busca trazer à tona a necessidade de cuidar não apenas dos outros, mas também de si mesmo.
Uma das fundadoras e diretoras do Filhas da Mãe, a psicanalista Cosette Castro, explica que a iniciativa começou a partir de sua própria experiência ao cuidar da mãe, que faleceu há cinco anos. “Eu sou filha única e cuidei dela por 10 anos, que teve Alzheimer. As pessoas falam muito de remédios, mas ninguém olha para nós que estamos cuidando, que também enfrentamos uma sobrecarga”, afirma Cosette.
Ela enfatiza a importância de resgatar a criança interior de cada um. “Às vezes, a gente imagina que não tem mais direito ao riso e se sente culpada por se sentir feliz, mesmo em meio a tanta responsabilidade”, reflete.
Rede de apoio e promoção da saúde
O coletivo Filhas da Mãe atende, atualmente, cerca de 550 pessoas, oferecendo uma rede de apoio que inclui serviços voluntários, tanto presenciais quanto virtuais. O objetivo é promover a saúde e garantir visibilidade à necessidade do diagnóstico precoce das doenças demenciais, como o Alzheimer, além de abordar a sobrecarga que os cuidadores enfrentam.
Cosette menciona que cuidadores frequentemente enfrentam problemas de saúde como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão e transtornos mentais. “São pessoas que não dormem, que têm insônia e um nível de ansiedade altíssimo”, explica.
Por isso, o coletivo utiliza eventos como caminhadas e exposições para informar o público sobre essas questões, inclusive durante o carnaval. Ela testemunha que a música tem um valor terapêutico significativo; no caso de sua mãe e de outras cuidadoras, as letras das músicas foram algumas das últimas memórias a serem esquecidas.
Márcia Uchôa, outra fundadora do grupo e cuidadora de sua mãe, Maria, de 96 anos, que também tem Alzheimer, destaca que, apesar da chuva que caiu em Brasília, o carnaval ainda é uma celebração importante. “A gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”, afirma, reforçando a ideia de que a festividade é um momento de alegria e autocuidado.
Além do Filhas da Mãe, outro grupo, Me chame pelo nome, também desfilou no carnaval, promovendo a inclusão e combatendo o preconceito. A servidora pública Aline Zeymer, uma das coordenadoras desse coletivo, destaca a importância de usar a arte como ferramenta de resistência e cuidado. Esse segundo carnaval do grupo visa não apenas a celebração, mas também a conscientização sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência.