Classe dominante e a percepção sobre o Estado
No lançamento de seu livro Capitalismo Superindustrial, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, fez uma crítica contundente à relação da classe dominante brasileira com o Estado. “A classe dominante brasileira entende o Estado como dela, não é uma coisa nossa, é uma coisa dela”, afirmou Haddad durante o evento no Sesc 14 Bis, em São Paulo, onde participou de um bate-papo com Celso Rocha de Barros e teve a mediação de Lilia Schwarcz.
Haddad contextualizou sua afirmação lembrando que, após a abolição da escravidão em 1888, o Estado foi, segundo ele, entregue aos fazendeiros como uma forma de indenização. “Eu defendo a tese de que o Estado foi entregue aos fazendeiros como indenização pela abolição da escravidão”, explicou, ressaltando que o movimento republicano começou logo após a assinatura da Lei Áurea e conquistou sucesso em um ano, mas deixou marcas na estrutura política do país.
A continuidade do problema
O ministro destacou que a vitória do movimento republicano não trouxe mudanças significativas na estrutura de poder. “O movimento republicano bota pra correr a classe dirigente do país e, no lugar dela, não põe outra coisa senão a classe dominante do país para cuidar do Estado como se fosse seu. Nós estamos com esse problema até hoje”, disse Haddad, enfatizando a persistência dessa dinâmica ao longo dos anos.
Ele também criticou o que chamou de “acordão” sob os auspícios das Forças Armadas, alertando que a democracia brasileira enfrenta desafios constantes. “Quando esse acordão é colocado em xeque, a reação é imediata. Você não pode tocar nisso, você não pode tocar em nenhuma instância. Por isso que a democracia no Brasil é tão problemática e tão frágil, porque a democracia é a contestação desse status quo. E, quando ela estica a corda, a ruptura institucional pode acontecer”, concluiu Haddad, levantando preocupações sobre a estabilidade política do país.
Capitalismo superindustrial: uma análise crítica
O livro de Haddad analisa os processos que moldaram o que ele chama de capitalismo superindustrial, caracterizado por desigualdade e competição crescente. O ministro aborda questões como a acumulação primitiva de capital nas regiões periféricas do capitalismo e a incorporação do conhecimento como um novo fator de produção, além das mudanças nas configurações de classe ao longo do tempo.
Haddad prevê que a desigualdade continuará a aumentar. “A desigualdade, quando o Estado mitiga os efeitos do desenvolvimento capitalista e organiza a sociedade em termos de desigualdade moderada, realmente as tensões sociais diminuem muito, é verdade”, afirmou. Contudo, ele alerta que, se deixada à própria sorte, essa dinâmica levará a uma desigualdade absoluta. “Quando isso acontece, você não está mais falando de diferença, você está falando de contradição e de processos contraditórios”, completou.
A obra é uma revisão de estudos que Haddad realizou sobre economia política e a natureza do sistema soviético nos anos 1980 e 1990, agora ampliados para incluir a análise da ascensão da China como uma potência global. Ele menciona também os processos ocorridos no Oriente, que, segundo ele, foram antissistêmicos e antiimperialistas, contrastando com a escravidão e servidão em outras regiões.
Sobre os resultados desses processos históricos, Haddad reflete: “Do ponto de vista do desenvolvimento das forças produtivas e mercantilização da terra, do trabalho e da ciência, houve um avanço. Em relação aos ideais que motivaram os líderes revolucionários, você pode dizer que não atingiu seus objetivos”, ressaltando a complexidade das transformações sociais e econômicas ao longo do tempo.