O sonho de ser cientista
Ainda criança, a estudante Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira, hoje com 17 anos, recebeu um ultimato da mãe: “Eu tinha a mania de ficar misturando as coisas em casa pra ver o que ia acontecer. Aí, a minha mãe me chamava de cientista maluca. Ela falou: ‘Quando você crescer, eu vou te forçar a fazer um curso de química’. E ela forçou mesmo”, lembra, aos risos. Raíssa, prestes a concluir o ensino médio com técnico em Química no Instituto Federal do Rio de Janeiro, campus Duque de Caxias, realmente vislumbra se tornar uma cientista. Isso não é nenhuma maluquice. Raíssa é a expressão de um movimento celebrado em todo o mundo neste dia 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciências.
Criada em 2015 pela Organização das Nações Unidas, a data tem o objetivo de chamar a atenção para a desigualdade de gênero nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Stem, na sigla em inglês), historicamente dominadas por homens. A participação de Raíssa em iniciativas como a promovida pela Fiocruz é fundamental para estimular novas gerações de mulheres na ciência.
Dentro da Fiocruz
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tem sido uma das instituições que abraçam essa causa. Desde 2020, a Fiocruz oferece uma imersão de verão para estudantes de ensino médio, com o intuito de inspirar e incentivar meninas a seguirem carreiras científicas. Raíssa participou pela primeira vez em 2025 e gostou tanto que repetiu a dose este ano, levando uma amiga, Beatriz Antônio da Silva, que também tem 17 anos e estuda no mesmo instituto federal.
Assim como Raíssa, Beatriz começou a se interessar pela carreira científica após o convite de uma professora de física, que desenvolve um projeto no instituto para estimular a entrada de meninas negras na área. “Ela é uma boa contadora de histórias. E ela sempre falava como foi difícil, porque ela era uma das únicas mulheres na sala da faculdade e foi negligenciada, sofrendo preconceito. Então, ela quer abrir portas para a gente”, conta Beatriz.
Esse esforço de cientistas mulheres para abrir o caminho para outras não é novidade para Beatriz Duqueviz, analista de gestão em saúde pública, que integra a coordenação do Programa Mulheres e Meninas na Ciência da instituição. Ela destaca que a importância de mulheres ocuparem espaços na ciência vai além da diversidade; trata-se também de sensibilidade e luta. Beatriz explica que o programa atua em três frentes: reconhecimento das cientistas mulheres, pesquisas sobre gênero e estímulo ao interesse pela ciência entre meninas. “As meninas são desestimuladas desde a infância e, quando crescem, principalmente as mais pobres, acabam dividindo a atenção dos estudos com os trabalhos domésticos”, complementa Beatriz.
Três dias de imersão
Na imersão de verão deste ano, 150 alunas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foram selecionadas para passar três dias conhecendo os trabalhos da Fiocruz e em contato com pesquisadoras de 13 unidades da Fundação. Duane de Souza, de 17 anos, que mora em Bangu, ficou sabendo da seleção pública para o programa através de um post nas redes sociais. “Eu já sei que quero fazer biologia. Mas a biologia abre portas para diversas áreas, então eu pensei que aqui eu poderia ter uma luz sobre que área seguir. E realmente eu tive uma luz. Antes, eu achava que fazer pesquisa era muito complicado, mas aqui percebi que não é bem assim”, conta Duane, que estuda no Instituto Federal do Rio de Janeiro, campus Maracanã.
Beatriz Duqueviz explica que a programação é pensada para apresentar a ciência real às estudantes, bem diferente dos estereótipos. “Você não precisa nascer um gênio para ser cientista. O que você precisa é ter curiosidade e disciplina para buscar respostas. Queremos que essas meninas tenham uma compreensão ampliada da ciência, para estimular que busquem carreiras científicas”, diz Beatriz.
As estudantes percorrem laboratórios com microscópios e provetas, locais tradicionalmente vistos como o espaço de trabalho de um cientista, mas também têm a oportunidade de conhecer o Laboratório de Conservação Preventiva, que se dedica à recuperação do patrimônio histórico da Fiocruz, ou a Revista Cadernos de Saúde Pública, uma das publicações científicas da fundação. A co-editora chefe da revista, Luciana Dias de Lima, acredita que isso é essencial para que as estudantes compreendam as muitas dimensões do trabalho científico, resultante do esforço coletivo e multidisciplinar.
“Alcançar postos mais altos na carreira ainda é um desafio. Principalmente porque nós, mulheres, enfrentamos a necessidade de atuar em outras áreas, como compartilhar o horário de trabalho com várias outras atribuições, como cuidados com a família. Além dos estereótipos de qual é o nosso lugar”, ressalta Luciana.
Felizmente, Sulamita do Nascimento Morais, uma jovem de 17 anos, já sabe que seu lugar é onde ela quiser. Moradora e estudante de uma escola estadual no Méier, ela é bolsista de iniciação científica em uma universidade e já participou de diversas atividades de estímulo à ciência para meninas. “Hoje, eu sei que quero estudar ciência da computação, mas antes eu nem sabia sobre tecnologia. Na nossa sociedade, ainda existe esse tabu de que tecnologia é mais coisa de menino. Através desses projetos e da imersão, pude ver que dá, sim, pra você seguir esses trabalhos, se impor e ter voz sendo mulher”.