Portela revela enredo sobre líder afro no carnaval

a man dressed in a colorful outfit and holding a ball Foto: Nigel SB Photography (Unsplash)

A Portela e suas raízes afro-brasileiras

Uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, a Portela, se prepara para contar na avenida as origens e a tradição do batuque, reconhecida como a principal religião de matriz africana praticada no sul do Brasil. O enredo deste ano, intitulado O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, promete resgatar a rica história e a importância cultural dessa expressão religiosa.

O batuque, ou nação, é uma das várias práticas religiosas afro-brasileiras que se destacam no país. Juntamente com o candomblé da Bahia, a Jurema Sagrada (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), o tambor de mina (Maranhão), a umbanda (Rio de Janeiro) e o Xangô de Pernambuco, forma um importante altar das religiões de matriz africana no Brasil.

O enredo da Portela traz à tona a figura do Príncipe do Bará, que seria o nobre Osuanlele Okizi Erupê, um líder religioso que adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida no Brasil. Nascido no século 19 no golfo da Guiné (litoral ocidental da África) e falecido em Porto Alegre na década de 30 do século passado, sua vida e legado são objeto de estudo e debate entre historiadores e antropólogos.

A importância do Príncipe Custódio

De acordo com a proposta do samba-enredo, a Portela busca “resgatar a tradição onde a África assenta”. O desfile terá um papel fundamental em lançar luz sobre dados que desafiam a percepção comum sobre as religiões afro-brasileiras no Brasil. Segundo o Censo Populacional do IBGE de 2022, há uma proporção maior de praticantes ou devotos de religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul (3,2%) em comparação ao Rio de Janeiro (2,6%) e à Bahia (1%).

“Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul”, detalha André Rodrigues, carnavalesco da Portela, em material distribuído pela escola.

O Príncipe Custódio desempenhou um papel crucial na mediação entre a população negra e as elites políticas gaúchas. Ele se destacou como uma liderança religiosa, sendo protetor e depositário de conhecimentos e liturgias dos cultos africanos. A antropóloga Maria Helena Nunes da Silva, em dissertação citada na publicação do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, afirma que Custódio ajudou a consolidar essa religião, tornando-a mais visível em Porto Alegre, mesmo quando estava frequentemente escondida nos bairros mais afastados.

O samba-enredo e os protagonistas do desfile

O samba-enredo sobre o Príncipe Custódio terá como principal intérprete Zé Paulo Sierra, um portelense que realizará seu “sonho de infância” ao cantar na escola. Ele se recorda de seu pai, que era portelense, e de sua infância no bairro de Abolição, onde a maioria das pessoas compartilhava o mesmo amor pelo samba. Zé Paulo revela que, desde os anos 1980, quando começou a se interessar por samba-enredo, se apaixonou por uma composição da Portela.

O concurso para a escolha do samba que a escola irá apresentar teve 36 candidatos, e a composição vencedora foi assinada por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena. Zé Paulo, que defendeu a composição na fase eliminatória, está confiante. “Eu sei cada detalhezinho desse samba”, afirma, animado com a oportunidade de se apresentar na maior campeã do carnaval carioca, que ocorrerá na noite de domingo, 15 de fevereiro.

O desfile da Portela promete ser um momento de celebração da cultura afro-brasileira e de reconhecimento das raízes que moldaram a identidade do Brasil. Com o Príncipe Custódio como símbolo, a escola busca não apenas entreter, mas também educar e conscientizar sobre a importância da diversidade cultural e religiosa em nosso país.

Ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

1º dia – domingo (15/2)

  • Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;
  • Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;
  • Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;
  • Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra.

2º dia – segunda-feira (16/2)

  • Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
  • Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;
  • Acadêmicos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;
  • Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.

3º dia – terça-feira (17/2)

  • Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi;
  • Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
  • Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;
  • Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

Autor

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    Jaqueline Silva é produtora de conteúdo no i9artigos.com, especializada em política, atualidades e fatos curiosos do mundo. Com olhar analítico e habilidade em transformar informações complexas em explicações acessíveis, ela acompanha diariamente os principais acontecimentos nacionais e internacionais para oferecer conteúdo confiável, contextualizado e relevante. Sua produção combina pesquisa rigorosa, atenção a detalhes e compromisso com a clareza, ajudando o leitor a compreender temas importantes e as tendências que moldam a sociedade.

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